Sexta-feira, Setembro 23, 2005

Cógito? Sum? Ergo...

Latim improvisado pra falar da minha vida que não teve ensaio geral.
Nasci em 1968, o ano que não terminou, e calhou de ser às 19:50, depois de 5 intermináveis horas de trabalho de parto num sábado que quis ser de lua cheia. Não podia dar noutra!
Viagens e mudanças e viagens de mudanças até '88 iriam me ensinar a ser rápido ao me apegar e desapegar e a viver o eternamente em tempo limitado. Isso graças ao glorioso Exército Brasileiro que meu pai servira servilmente. Viagens de Guajará-Mirim pra Maceió pra Porto Velho pra Belém pra Fortaleza pra Itapipoca pra Fortaleza e, ufa, pra Porto Velho.
Finalmente comecei a trabalhar e a descobrir minha vocação pra atirar em todas as direções, inclusive no próprio pé (Castro Alves também atirou, né?). Nessa época veio também a perda da virgindade, minha carteira de habilitação, doação de sangue, vestibular e abandono de faculdade, primeiro noivado frustrado e, quando parecia que tudo ia bem, o Mar Vermelho!
Casamento de 3 anos e meio com um filho adotivo e um biológico, brigas, discussões e afastamento dos laços familiares com os Pontes Moura. O "incêndio" que acabou com amizades, poesias, fotos, cartas e amores (inclusive o próprio).
Fechado o terceiro tomo veio emprego no Correios com muito status e pouco dinheiro, nova mudança de endereço e de vida. Virei acreano também. Adquiri 14 quilos em 6 meses e passei a ser magro. Isso porque antes disso eu estava 15kg abaixo do peso.
Vida curta, interrompida por um pedido da mama pra ir morar com ela em Itapipoca e virar motorista-pastor alemão-nutricionista-enfermeiro-alterego.
Nova vida no Acre de novo e virei o Titio Normando, o professor mais presenteado do SENAC e o único não-graduado em nível superior em várias áreas.
Terceiro concurso público com resultado positivo e vortei pra Porto Velho (mal do Rio Madeira) e virei o Tio Mala, alternando entre funcionário público feliz e mal pago, babá, palhaço e estorvo.
E agora me vem Élida e viro feto, me preparando pra inaugrar os "enta", que, segundo dizem, é quando a vida começa. E a bagunça do apartamento já sumiu. (tsc tsc!)

E ainda vem o Zé (o outro libriano da família) dizer que eu devia encarar uma TVP!

Terça-feira, Setembro 20, 2005

Lusia Luci Pontes Moura

Quem disse que mãe é tudo igual? A minha é diferente. Não se chama Maria e não é superprotetora.
Chora pelos filhos, mas não consegue demonstrar. Ainda assim está longe de ser um monstro.
Ela ficou órfã de mãe aos 11 anos e se tornou a mãe dos irmãos, mesmo sem ser a mais velha. Como era a mais morena da família logo foi apelidada pelos irmãos de nega, o que no Ceará é um apelido pejorativo.
Deu de se interessar pelo filho do delegado que, além de ser mulato era protestante numa cidade em que o pastor e o padre tinham como passatempo discutir via sistema de alto-falantes, que era a rádio da época. E como ela era de família rica, branca e católica, apanhou muito por causa disso.
Foi "roubada" do vovô pelo velho e se casou aos 17 anos, mas o vovô foi atrás e anulou. Casou de novo aos 19 e o vovô anulou de novo. Aos 21 casou de novo e o juiz de paz disse que se eles fissessem isso de novo eles iriam ser presos.
Como ela mesma diz, teve 11 filhos mas nunca teve uma criança dentro de casa.
Assumiu sozinha a responsabilidade pela educação dos meninos, porque essa era a função da mãe, a do pai era dar carinho e sustento. Assim, acho que nenhum dos filhos lembra de ter sido colocado no colo por ela pra um cafuné.
Errou, acertou, errou, acertou mas conseguiu fazer com que todos os filhos aprendessem a ler e escrever antes de entrarem para a escola, a usar talheres aos cinco anos, ao se comportar na rua e a serem honestos. Por isso os 11 são ótimos partidos e pessoas muito confiáveis. E nem falo tanto de mim, que sou o masi torto e porra-louca da família e que ainda não conseguiu entrar na puberdade (mas isso é outra história).
Dona Luci tem uma caligrafia ótima e é uma profunda conhecedora de literatura e de conhecimentos gerais. De culinária simples e eficiente e um gosto requintado, ela sabe ser sofisticada. Tem a habilidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo e consegue ler 2 livros simultaneamente por semana, além de tricotar, crochetar e bordar.
Reclama da vida e já passou por mais de uma dezena de cirurgias.
Já completou 70 e ainda tem energia pra viver outros 35.
Não sabe amar porque não foi tratada pela vida, parentes e amigos com carinho. Mas, gosta de ser e aprender sobre isso.

Sem ela, teríamos sucumbido. E dessa eu sou um filho da mãe, e daí?

Quarta-feira, Setembro 14, 2005

Homem apaixonado é um cão vadio

Não é novidade que quando estamos apaixonados (ou carentes) somos como bola de ping-pong entre a razão e a emoção.
Ontem eu estava na parada de ônibus quando um rapaz (que vou chamar de José Manoel) puxou assunto, primeiro oferecendo o cigarro quase inteiro que o amigo ia dispensar porque tinha chegado seu ônibus (?!). Não é surpresa pra mim pessoas que não me conhecem se sentirem à vontade e expor seus problemas do nada. (hm-mmm!)
O cara tava apaixonado por uma garota da escola que tá dando o maior mole pra ele, mas ele tinha medo de chegar e levar um corte. Ela até já havia dispensado um outro cara que ela tava pegando só porque chegou no colégio com ele e o Zé Mané fez uma cara de reprovação.
Claro que eu disse pra ele não ter medo, afinal, o pior que ele teria seria o que já tem: nada. Disse que fora não mata e rejeição faz parte da vida, afinal, ele não estaria perdendo as malas do Bispo Rodrigues no aeroporto.
E depois, se ele ficasse apenas assistindo o jogo vinha um Maradona com uma "mano de Diós" e mandava pras redes. Ou não? Se ela fosse pega num minuto de bobeira, ou se canse de esperar uma iniciativa, bem que poderia gostar da cheirada, digo, fungada do dito baxinho.
Vocês precisavam ver o Zezinho, um mulato de quase 1,90m com jeito de jogador da NBA, falando igual um meninin' que tinha deixado o sorvete cair no chão. Se eu fosse um cara sarcástico teria até rido do jeito dele. (hei hein?!)
Mas, caí na real e contei pra ele que eu também já tive meus momentos de tremedeira só em pensar em chegar junto de uma guria. Claro que isso foi antes dele nascer, mas foi. Ele também tinha um complexo por ser pobre e achar, como parece ser senso comum, que a Maja não iria lhe dar bola só porque ele não tinha carro. Mas isso é tema pra outro texto, que pode bem ser puxado por algum de vocês.

Bom é ver que a humanidade ainda não evoluiu ao ponto de acabar com o friozinho na barriga antes de uma conquista. Inventamos tanta coisa, mudamos tantas gírias e expressões, mas o olhar e o velho e bom flerte ainda são linguagens internacionais.
;-)

Domingo, Setembro 11, 2005

Receitas para a vida. (presunçoso?)

Cozinhar é muito bom.
Prazer descoberto aos 11 anos quando, depois de grande insistência, minha mãe resolveu deixar eu cozinhar e me ensinou a fazer macarrão, daqueles que a gente come em almoços normais e que mais tarde descobri que se chama "macarrão primavera".
Com o tempo fui me aprimorando. Fresco e cheio de curiosidades fui fazendo experiências e conhecendo coisas novas.
Um dia resolvi ousar e tentar algo nunca feito lá em casa e saiu a primeira lazzagna, graças à minha admiração pelo Garfield.
Fui aprendendo sobre temperos, vinhos, molhos, composições químicas, cortes de carne e legumes e mantendo sempre em mente o ensinamento básico de mamãe Luci: se você souber fazer arroz, macarrão, feijão, salada e temperar carne então sabe fazer qualquer coisa.
Claro que há comidas que não são qualquer dessas coisas, mas segue-se o mesmo princípio. Por exemplo, o segredo da comida chinesa não está nos ingredientes, mas no modo como são cortados.
Há modo certo pra se cortar o mesmo tipo de carne se se vai fazer frito, cozido ou assado, e mesmo se for pra ser assado no forno, no espeto ou na grelha. Como também faz diferença com os temperos.
Criei gosto em cozinhar o trivial e cotidiano. Assim tenho em minha cozinha um laboratório que ajuda em receitas ousadas e me deixa tranqüilo pra tentar receitas inusitadas na casa de amigos.
Há também, como meu pai ensinou, que saber a técnica de bajular o feirante e o açougueiro e assim conseguir bons alimentos e dicas de temperos.
Ninguém aprende nada sozinho e cozinhar, porque é feito com as mãos também tem tudo a ver com o estado de espírito e de saúde. Há troca de energia, e é por isso que aquela pitadinha extra ou a "caquinha da unha" do cozinheiro dão aquele gosto inimitável, ainda que se use a mesma receita, fogão e panelas.
Ter curiosidade sobre a origem de certas comidas também ajudam. Por exemplo, saber que a batata inglesa é inglesa num misto de experiência, acidente e crise de saúde, e que a batata frita foi burrice, acidente e roubo ou que a maionese foi uma necessidade de guerra. Estas histórias eu aprendi e daí a gente vai aprendendo e fazendo histórias.

E como cozinhar é da alma, à medida que envelhecemos a própria culinária se aperfeiçoa, como os dons e talentos. Bonna Fortuna!

Sexta-feira, Setembro 09, 2005

Crise dos 20

Não tive crise dos vinte. Pelo menos não me lembro de ouvir algo assim até ver o tema do post comunitário de hoje. Acho que nem tive vinte.
Aos vinte anos eu estava no meu primeiro emprego e (acreditem!) ainda era virgem. Minha prioridade na época era conseguir grana o suficiente para prestar o vestibular.
Vivia sobre a sombra da juventude dos meus irmãos que viveram a adolescência na década de 70 e início dos anos oitenta. Naquela época as informações eram tão lentas que um lançamento do cinema ou da música no primeiro mundo chegavam ao Brasil com quase um ano de atraso ou mais.
Estávamos saindo da primeira presidência civil depois do regime militar e ainda havia uma forte herança do estilo de administraçao militar no serviço público e nas escolas.
Meus anos 20 seguiram com as mortes de Cazuza e Freddie Mercury e muitas bandas de rock nacional que não sabiam muito bem o que ver e fazer.
Vimos nesta fase nascerem os laser disc que mais tarde seriam chamados de CD e a extinção dos discos de vinil. Vimos nascer o monitor colorido, o mouse, o Windows e os carros nacionais com transmissão automática e equipados com air bag e ABS.
Não tínhamos uma identidade política e não acreditávamos que um dia poderíamos ter uma moeda forte. Durante meus anos vinte ninguém acreditava que o Real chegasse a completar uma década de existência e, se completasse, não seria sem uma maxidesvalorização (palavrão felizmente extinto dos nossos bolsos).
As igrejas evangélicas começaram a entrar no neopentecostalismo que causou uma megaexplosão do ritmo gospel e de igrejas patrocinadoras de mega-eventos como congressos no Maracanã e Mineirão com participação de 200mil fiéis. Eventos que forçaram a Igreja Católica iniciar seu Movimento Carismático com a desaprovação do Papa e grande clamor na mídia do gato Marcelo Rossi.
Não tínhamos tempo de viver crise de vinte anos porque estávamos numa das mais intensas fases de mudança de cenários que o Brasil já vira desde a Semana de Arte Moderna. Ao invés de políticos apenas comprarem votos nas igrejas, começaram a eleger líderes religiosos também.
Apareceu, pra desespero de muitos, naquela época o "ficar" e o namoro passou a ser compromisso.

Puxa vida! Cadê minha crise de vinte anos? Parem os relógios por 87600 horas pra podermos viver, pelo menos o finzinho da minha crise dos trinta, tá?

Terça-feira, Setembro 06, 2005

Um pobrema só é pouco

Um amigo imperdível disse uma vez que ter um pobrema só é pouco, temos que ter dois e sair da frente que eles se entendem. Até hoje fazem gozação dele por causa disso, mas tem vezes que parece que o que ele disse foi profecia.
Muito obrigado a todas e todos pelas mensagens maravilhosas do último texto, certamente me ajudaram. E olha que nem senti como massagem no ego, hein?
Hoje saimos mais cedo do trabalho e pude ir pra casa fazer um almoço caprichado. E ficou tão bom que quase me pedi em casamento. Depois deitei e quando estava quase dormindo o telefone toca, o número é de um grande amor do passado que está em rota de se tornar presente de novo, mas, era uma voz de homem me sacaneando por ciúmes. Calma! Não estou cantando a mulher de ninguém, até porque eles estão separados há dois anos. O cara é que é do tipo que acha que ex-mulher tem que ficar em casa cuidando dos filhos DELE, é propriedade eterna dele.
O interessante é que eu tava tão zen que só disse: - falou, então. Boa tarde! - e dormi. Sem querer ficar calculando o que aconteceu, relaxei, depois eu ligo. Afinal, ela mora em Fortaleza, i.e., beeeeem longe daqui e não há nada que eu possa fazer por telefone.
No que vai dar esse rolo eu não sei, e não vou antecipar dor. Uma que aprendi diante de um atentado é a seguinte: não feche os olhos, espere a explosão e veja pra que lado estão indo os cacos, assim você pode se desviar com segurança.
Se você escutar um trovão fique tranquilo(a), se você conseguiu identificar que era um raio é porque não caiu na sua cabeça.
O quê que isso tem a ver com o início? Tudo. Como bom predador eu fico atiçado com um ataque e não quando "o invasor" deita em sinal de respeito. O bom é que aprendi que não preciso de bíceps volumosos porque a parte do meu corpo que mais usa meu sangue é o cérebro.

Nossa, como estou filósofo hoje! E como estou cruel!
mmmmm-huaaaaahh!!!

Sábado, Setembro 03, 2005

Tinha que acontecer comigo?

Tenho muitos motivos pra comemorar e poucos pra lamentar, é verdade, mas...
Se eu fosse um publicitário político (não se enganem, eles não vão desaparecer!) teria assunto pra uma campanha inteira, tanto de meu passado recente, quanto antigo e até do presente.
Mesmo com meus defeitos e com as coisas negativas da minha vida ainda conseguiria fazer uma embalagem tipo exportação da minha baba.
Mas, sabe quando ainda assim você passa um dia sozinho e sente que, mesmo deixando saudades, poderia ser mais útil deixar de existir?
Calma, não chamem a polícia se eu não aparecer em dois dias! Não vou me matar. Até porque, se alguém tem que ser o chato que vai fazer com que o doce da vida dos outros pareça mais doce, du-du-du-duuuh, aqui estou e-eu!
Apenas estou naqueles dias de solidão em que você tem várias pessoas que suportam e até gostam de você disponíveis, mas, não se tem em nenhuma delas aqueles amigos de todas as horas, ou se sente que perdi o bonde da história que iria me levar ao final do arco-íris.
Tantos amores perdidos, deliberadamente ou não. Erros profissionais ou batidas de frente com pessoas importantes em situações que poderiam ter me levado ao Olimpo.
Mas, não vou ficar bancando Álvaro Campos me lamentando "se eu tivesse, naquele momento, virado à esquerda ao invés de à direita".
Até tenho coisas do que me arrepender e outras tantas do que lamentar (e ainda nem inaugurei os "enta"), mas, a vida segue em frente, se por destino, karma, plantio-colheita ou teoria da conspiração não sei. Prefiro não analisar o que minha mente não concebe.
A velocidade na estrada às vezes é alta demais pra tentar descobrir porque o pneu furou. Melhor reduzir, trocar e procurar um borracheiro. A tristeza é que essas paradas forçadas dão sempre aquele vazio de que poderia estar bem mais à frente agora. Sentimento de perda, mesmo que depois perceba-se que o bendito "prego" nos livrou de uma emboscada ou acidente quilômetros à frente. Daí, que se dane se o pneu pelo menos é de um cadillac!

Chato é se sentir incomodado e puto sem motivo.